
A amêndoa de cacau produzida em Linhares (ES) alcançou novo patamar de cotação nesta semana, animando produtores rurais e gerando expectativa positiva para a safra capixaba. O município, responsável por cerca de 80% da produção de cacau do Espírito Santo, vive momento de otimismo no campo após período de volatilidade intensa no mercado global da commodity.
A cotação do cacau em Linhares voltou a surpreender nesta semana. O preço pago ao produtor pela amêndoa fermentada e seca atingiu novo recorde local, elevando a expectativa de uma safra mais rentável para as milhares de famílias que vivem da cacauicultura na região do Baixo Rio Doce, no norte do Espírito Santo.
O movimento positivo no mercado local contrasta com o cenário de pressão nos preços internacionais, onde os futuros de cacau na Bolsa de Nova York recuaram para cerca de US$ 3.241 por tonelada em abril de 2026 — nível bem abaixo do pico histórico de US$ 9.660 por tonelada registrado em março de 2024. Ainda assim, o preço praticado em Linhares nesta semana superou as expectativas regionais, impulsionado pela qualidade diferenciada das amêndoas capixabas e pela demanda crescente da indústria de chocolates premium por cacau com Indicação Geográfica (IG).
Tabela de cotação do cacau em Linhares
Panorama da Cacauicultura no Espírito Santo
Perfil da Produção e Impacto Regional
| Indicador | Dado Estatístico | Impacto e Contexto |
|---|---|---|
| Concentração Produtiva | 80% em Linhares | O município é o coração da produção, beneficiado pelo clima e tradição. |
| Ranking Nacional | 3º Maior Produtor | O estado mantém posição de destaque no ranking brasileiro de produção. |
| Abrangência Geográfica | 45 Municípios | A cultura se expandiu e hoje está presente em mais da metade do estado. |
| Perfil Social | 69% Agricultura Familiar | A produção é um motor de geração de renda para pequenas propriedades. |
Exportar para as Planilhas
Destaques Adicionais
- Qualidade e Reconhecimento: Além do volume, o estado tem se destacado na produção de cacau fino (amêndoas especiais), com premiações internacionais que elevam o valor agregado do produto capixaba.
- Modelo de Cultivo: Grande parte da produção ocorre no sistema de cabruca (sob a sombra de árvores nativas) ou em sistemas agroflorestais, o que alia a viabilidade econômica à preservação da Mata Atlântica.
- Diversificação: O avanço para 45 municípios mostra que o cacau deixou de ser uma exclusividade do Norte, ganhando espaço em regiões de Tabuleiros Costeiros e até em áreas de transição.
O que explica a alta desta semana
Especialistas do setor apontam uma combinação de fatores que elevou o preço praticado em Linhares nesta semana acima da média recente. O primeiro é a qualidade intrínseca das amêndoas capixabas: o cacau de Linhares possui Indicação Geográfica registrada desde 2012 no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), certificando sua origem e atestando características únicas como o alto teor de manteiga de cacau — atributo gerado pelo solo de aluvião rico em potássio da região do Baixo Rio Doce.
O segundo fator é o movimento de valorização do cacau de origem única pela indústria de chocolates premium e bean-to-bar. Enquanto o mercado de commodities padronizadas sofre pressão de excesso de oferta africana, o cacau com terroir identificado e rastreabilidade completa — como o de Linhares — mantém demanda firme e preços acima da média de mercado junto a compradores especializados.
Um terceiro elemento é a suspensão das importações de amêndoas da Costa do Marfim, decretada pelo Ministério da Agricultura após identificação de risco fitossanitário e indícios de triangulação comercial com outros países africanos. Segundo a Associação dos Cacauicultores do Espírito Santo (ACAU), a medida, embora chegue tarde — os estoques das moageiras já estavam abastecidos —, sinalizou ao mercado uma reorientação da política agrícola em favor do produtor nacional.
“É uma cultura importante, que você consegue produzir as amêndoas e depois armazenar de forma tranquila, fazendo a venda no momento que quiser. Não é perecível, dá para vender em qualquer quantidade e a um preço razoável — isso traz segurança ao produtor.”— Lucas Calazans Santos, agente de Extensão Rural do Incaper
Linhares: o coração da cacauicultura capixaba
Linhares não é apenas o maior município produtor de cacau do Espírito Santo — é o 6° maior produtor de cacau do Brasil entre mais de 310 municípios que cultivam a fruta no país, segundo dados do Incaper. A cidade concentra aproximadamente 15 mil hectares de plantio, com estimados 13,5 milhões de pés de cacaueiro, a maioria cultivada no sistema Cabruca — método agroflorestal que integra o cacaueiro sob a sombra da Mata Atlântica original, preservando o bioma enquanto produz.
A qualidade das amêndoas linharenses já foi reconhecida internacionalmente. Em 2017, o produtor Emir de Macedo Gomes Filho, da Fazenda São Luiz, ganhou o prêmio Cacau de Excelência no Salão do Chocolate de Paris — o mais importante concurso global do setor, conhecido como a “Copa do Mundo do Chocolate”. Em 2019, o mesmo produtor venceu o Concurso Nacional de Qualidade Cacau do Brasil, na categoria Varietal.
| Indicador | Linhares | Espírito Santo |
|---|---|---|
| Participação na produção estadual | ~80% | 100% (referência) |
| Posição no ranking nacional | 6° maior município produtor | 3° maior estado produtor |
| Área cultivada | ~15.000 hectares | 45 municípios produtores |
| Indicação Geográfica (IG) | Sim — desde 2012 (MAPA) | Único do Brasil com IG de cacau |
| Destinos de exportação | Inclui premiados internacionais | +45 países (deriv. de cacau) |
| Agricultura familiar | Maioria das propriedades | 69% dos estabelecimentos |
Cenário internacional: queda global, valorização local
O mercado internacional de cacau vive um momento de transição significativa. Após o pico histórico de US$ 9.660 por tonelada em março de 2024 — resultado de duas safras consecutivas abaixo da média na Costa do Marfim e em Gana, agravadas pelo fenômeno El Niño —, os preços recuaram para cerca de US$ 3.100–3.241 por tonelada em abril de 2026, pressionados por colheita recorde na África Ocidental e pelo aumento dos estoques certificados na ICE.
Segundo a plataforma Trading Economics, os estoques certificados monitorados pela ICE subiram para 2.375.262 sacas no início de abril de 2026 — recorde de 1,5 ano. As condições climáticas favoráveis na Costa do Marfim, com chuvas acima da média nas regiões produtoras, elevaram as projeções para a colheita intermediária (março a agosto), aumentando a pressão sobre os preços futuros.
Para o produtor de Linhares, no entanto, esse cenário tem uma leitura diferente. A queda dos preços da commodity genérica abre espaço para a valorização do cacau fino e de procedência — exatamente o nicho em que o ES se posicionou estrategicamente ao longo de décadas de investimento em qualidade, rastreabilidade e gestão de imagem.
Histórico de Cotação Global do Cacau
Bolsa de Nova York (NYMEX/ICE) · USD/ton
| Período | Cotação (Média/Fechamento) | Contexto do Mercado |
| Jan 2024 | ~US$ 3.200 | Início da escalada por quebras de safra na África Ocidental. |
| Mar 2024 | US$ 9.660 🔺 | Pico histórico (na época) com crise severa de oferta global. |
| Dez 2024 | ~US$ 7.000 | Estabilização em patamares elevados após recordes de US$ 12k+. |
| Mar 2026 | ~US$ 3.100 | Retorno a níveis próximos da média histórica pré-crise. |
| Abr 2026 | US$ 3.544 ↑ | Ligeira recuperação e rali técnico na metade do mês. |
Observações Técnicas (Dados de Abril/2026):
- Volatilidade Recente: Embora o mês tenha iniciado próximo a US$ 3.241, o mercado apresentou forte valorização nos últimos dias, chegando a US$ 3.544 em 16 de abril de 2026.
- Comparativo Anual: Apesar da subida recente, os preços atuais estão cerca de 55% a 58% abaixo do topo registrado há um ano (abril de 2025).
- Tendência: O mercado busca um ponto de equilíbrio entre a recuperação da moagem global e o consumo que ainda tenta se recuperar dos preços recordes de 2024/2025.
Nota: Os valores de 2026 referem-se aos contratos futuros com vencimento mais próximo (geralmente Maio ou Julho/26).
Fonte: Trading Economics / ICE · Valores aproximados de futuros em NY
Impactos para o produtor familiar de Linhares
A variação de preço do cacau afeta diretamente a renda de mais de 1.900 famílias que produzem a amêndoa em regime de agricultura familiar no Espírito Santo — das quais a grande maioria está em Linhares e municípios vizinhos como Sooretama, Rio Bananal, Colatina e Jaguaré.
O período recente foi de grande tensão. A entrada de amêndoas importadas da Costa do Marfim — e suspeitos de outros países africanos comercializados como marfinenses — derrubou temporariamente o preço da saca de 60 quilos para cerca de R$ 600, valor abaixo do custo de produção local, segundo a presidente da ACAU, Kellen Scampini. “Não vamos precarizar a questão sanitária em hipótese alguma”, afirmou, em posicionamento público sobre os riscos fitossanitários da importação desenfreada.
A alta desta semana, portanto, representa mais do que um número: é um sinal de recuperação da confiança do mercado no cacau de Linhares como produto diferenciado, com identidade geográfica e qualidade rastreável — atributos que nenhuma importação genérica consegue replicar.
🌱 Cacau capixaba em números: As exportações de derivados de cacau do Espírito Santo alcançaram 45 países no último ano, com destaque para Uruguai (20,45%), Bolívia (16,73%) e Argentina (16,44%). Somente no primeiro trimestre de 2024, as vendas externas somaram US$ 4,1 milhões, chegando a 34 destinos diferentes — consolidando o ES como 5° maior exportador nacional de cacau e derivados.
O que esperar para as próximas semanas
O mercado aguarda dois eventos de grande impacto para definir a tendência das próximas semanas. O primeiro é a divulgação dos dados de moagem do primeiro trimestre para Europa e América do Norte, prevista para 16 de abril — os números devem refletir a fragilidade da demanda global após os preços elevadíssimos de 2024 e o consequente ajuste de consumo pela indústria.
O segundo fator é o desdobramento da decisão do Ministério da Agricultura sobre a suspensão das importações da Costa do Marfim. Uma decisão definitiva que mantenha restrições sanitárias rigorosas seria um sinal positivo para o produtor brasileiro e potencialmente catalisadora de nova alta nos preços domésticos.
Para os cacauicultores de Linhares, a mensagem desta semana é clara: qualidade tem preço. Em um mercado global cada vez mais dividido entre commodity padronizada e produto de origem, o cacau capixaba — com suas 100 anos de tradição, seu solo de aluvião único e sua Indicação Geográfica certificada — tem credenciais para ocupar o topo da cadeia de valor.
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